Eu soube sobre tudo num clarão, logo ao chegar em casa. A porta bateu com um som de eco, pesada. Um alívio seguido de um ardor, bem do lado esquerdo do peito. O dia havia sido como todos os outros. Dias santificados por experiências, ora animadoras, ora educativas, ora dissociadas de azuis. O amor vem assim, para mim e talvez, para você, nada disso. Por isso o jeito certo de fazer as coisas foge entre os dedos da minha mão, num ímpeto de mergulhar os dedos pelos cabelos como quem retira restos de cansaço e desalento. Prometi me empenhar mais na minha forma de apresentar o amor, mas, sempre que tento, desfaço em fumaça minhas reais intenções. Na verdade, quero mesmo é sua boca pousada sobre a minha, inicialmente suave, depois, impetuosa, nua, crua. O seu calor e o meu, juntos. Corpos suados de tanto amar, linhas decifradas além da palma da mão. Pois, o que resta além disso não me basta, não me satisfaz mais como antes. Tornou-se um hábito, pernicioso, repetitivo, enfadonho. Ir até a janela e abri-la é o mesmo que destarrachar a válvula de um balão de oxigênio. Necessidade urgente de ar, de escape, de finalização de uma etapa que parece não ter fim. Vens para mim, assim: inacabado, deslapidado, desfocado de qualquer iniciativa. Formatas delicadezas, sim, porém inócuas no quesito integral de amar-me. O rascunho de uma arte final que não sai do papel, não evolui, não se veste de cor. Rabisco no papel o seu rosto, mas, desfiguro mesmo é a mim. Perdi meu eixo ao desenhar sobre o que não criei. Amasso o papel, mas, teu rosto continua nele. Nada ficará no lugar, depois disso?! Terei mesmo que carregar você comigo como o tubarão carrega a rêmora?! Não sei se consigo, meu lorde! Minha sina, se for a solidão de dias ausentes de ti, jamais se empenhará em modificar tais rumos. Fecho a janela e caminho em direção ao chuveiro. Deixo por conta da água o esquecimento de ti e sua imagem se desfazendo como os nós dos meus cabelos. Depois disso, apenas o sono entre lençóis azuis e brancos, tal como desejo sejam meus sonhos sem você dentro deles. A noite cai sobre mim com seu manto enganador. Dormir é minha fuga mais audaciosa de ti!
Sol:]
“Corra não pare, não pense demais
Repare essas velas no cais
Que a vida é cigana
É caravana
É pedra de gelo ao sol
Degelou teus olhos tão sós
Num mar de água clara”

