Hoje acordei com o Sol. Com uma vontade imensa de ficar. A mente descrevendo linhas de tarefas intermináveis, ofícios, ofícios, ofícios. E o coração pedindo Paz. E me deixei ficar, docemente. Sem culpa alguma, sem pressa, sem medo. O prazer indescritível de um café da manhã sem a urgência do relógio é simplesmente fascinante. E um cansaço meio entristecido, de acontecimentos desconexos, recentes, afiados, latentes. Na pele, a sensação de um ardor fininho, ininterrupto, sequenciado. Retalhos malfadados de dias afins. Nos lábios, apenas um leve sorriso, miudinho, estampando lembranças adocicadas, de pessoas adocicadas, de momentos adocicados. Pois os tive, no dia que findou horas atrás. E foram exatamente tais momentos, como que dependurados em forma de sinos de vento, que sedaram uma saudade de casa que não tem tamanho, nem explicação. Refúgio! Todos precisamos de um. Seja uma toca na montanha mais alta do planeta, seja no fundo de um riacho pequenino, seja entre papelões e caixotes de maça, seja de zinco ou de concreto. O João de Barro deve disso, bem saber. Pois constrói o seu, passiva e languidamente. Conheço vários, busco por eles entre as árvores da grande cidade. E são eles que me remetem ao lar, instantaneamente, quando os observo. Só por hoje, só por um amanhecer, me entrego, me dispo, aquieto todos os meus sentidos. Fora, os ruídos de um planeta inteiro. Dentro, uma alma que chora, ri, pressente e desmente: Não, não me sinto só, jamais! Apenas preciso de mim, vez ou outra, para acreditar que possa ser um, sendo um milhão. Apenas para sentir saudades do que não vivi e não me entristecer por tempo infinitamente comprido. A cor dos meus cabelos não nega: o tempo passará por mim como num relógio de compartimento público. Parecerá não acomodar seus ponteiros entre o norte e o sul, mas, irá parar sobre eles, mais cedo do que tarde. Espero que a noite seja estrelada, depois disso…

