Amigos pediram-me “Bis”, eis:

Perguntaram-me, a dois dias, de quantos amores teria eu me servido vida afora ou teria ainda de me servir, para me bastar num só. Perguntas auspiciosas, respostas doidivanas. Não foram tão numerosos, dos quais não tenha podido dar conta e nem atualmente tão inomináveis, a ponto de nem valerem a descrição. Alguns excêntricos, devassos, pasmosos. Outros corriqueiros, voluptuosos, admiráveis. Alguns me tiraram o sono, a fome, a vontade própria. Outros me trouxeram a paz, a vitalidade, a alegria de viver. Mas, como toda bagagem trás dentro dela, objetos que usaremos mais, outros menos, nem sempre me utilizei de toda ela. Como todo banquete é servido a rigor, nem sempre pude deliciar-me com todos os pratos oferecidos à mesa. Minha cronologia amorosa nem sempre se faz rigorosa, menos ainda, exata. Poderia denominá-la eclética, porém sem muitos rubores excessivamente perniciosos ou exclusivamente inócuos. Não houve contradições, mas me vi várias vezes, contraditória. Desconheço ponderações que tenham surtido efeito na mão dupla do amor. Racionalizar emoções é que nem trajetória de alpinista: cálculos programados, porém inúteis, dada à imprevisibilidade dos acontecimentos. O que os olhos vêem, o coração palpita. O que o coração palpita, a mente trava. O que a mente trava, o corpo exprime. O que o corpo exprime, a palavra cala. Não há como escapar das tramas a que o amor conduz. Sua malha enreda, tece, fia e veste. Almas frias se aquecem no enlevo do amor. Peles sensitivas arrepiam-se ao toque não anunciado, tal qual cio resguardado, inato. Ávidas bocas encontram outras, num vagar sem rumo, num céu salivado. Olhos se cerram, cílios suavizam o ato. A visão que turva, não vê mais sentido, ao contrário vibra, por paisagens outras. Ziguezaguear amores é preciso, mas nem sempre são precisos, os trâmites do percurso. De quantos amores me servi? Vários. De quantos ainda terei de me servir, para me bastar num só? Não sei. Somente sinto que será daquele, capaz de ver na minha fortaleza, minha não aparente fragilidade, onde resguardei belíssimas aspirações. Cuja mão ofertará com firmeza à minha e me conduzirá, com delicadeza quase pueril. Para onde não diremos nada, pois nada precisará ser dito, tudo há de ser bendito, dentro dos quintais.
“ (…) Cada dia que passo sem sua presença
Sou um presidiário cumprindo sentença
Sou um velho diário perdido na areia
Esperando que você me leia
Sou pista vazia esperando aviões
Sou o lamento no canto da sereia
Esperando o naufrágio das embarcações”.
Esperando Aviões
Vander Lee

Transparente… e bem resolvido. Gostei imensamente!
É uma boa descrição do que você transparece naturalmente, pois sempre há a diferença entre o que as pessoas dizem e o que elas tentam dizer.
Não sei quanto aos outros,Mrs. Brian, mas… nas tumultuadas “orelhas do mundo”, minha voz pode parecer de vitrilho. Por isso escrevo: os “olhos do mundo” devem me observar melhor, deste modo! Quem me dera todos olhassem para mim nesta direção… quem me dera!!! rs.