Tenho o hábito maluco de falar sozinha! E foi sozinha que o criei, pois me parecia normal falar comigo mesma. De uns meses para cá, tenho mudado meu estranho modo de ser: falo com o Godofredo (Godô, para os mais íntimos); com a Margarida (graaande companheira das horas difíceis); com o Teobaldo (sempre que ele resolve empacar, que nem uma mula); com a Visionária (apesar de que, ela já aprendeu a falar sozinha desde que chegou aqui) e, de uns dias para cá, com o Adamastor (este sim tem me tirado do sério). De todos, o que mais toca fundo meu coração é o Catulo (tira meus pés do chão e me dá asas). Ah…. nem ousaria me esquecer da Matilde (a boneca mais menina que conheço). Mas, como não poderia deixar de ser, algum amigo eu deveria ter, que não precisasse ganhar vida pela minha imaginação: o Ferrugem! Este, silenciosamente faz-me companhia, dia e noite, noite e dia, até que alguma coisa nos separe. Por enquanto, esta coisa de “separação” não é papo para nós dois. Temos muito mais o que dizer um ao outro… por hora. Bem… voltemos ao Adamastor. Posso descrevê-lo assim: é baixinho, meio que gordinho, meio que pesadinho e bastante resistente para sua funcionalidade. Doze anos de existência parece-me tempo considerável para sua função, creio eu! Sempre esteve comigo com a finalidade exclusiva de desempenho rápido e eficiente, ainda que questionável sua segurança para minha saúde. De lá pra cá, ia bem tranquilinho quando eu o punha para exercer funções como: esquentar, manter aquecido, descongelar. Mas, agora que preciso dele para alimentar todas minhas necessidades diárias de sobrevivência, tem dado com os burros n’água: potencializa o que não me serve – queimando, e mantém cru o que preciso – ao ponto. Ameacei ignorá-lo, aposentá-lo, esquecê-lo de vez! Mas, pobre de mim, que nada serei sem que ele seja, também! Simples assim… tomei decisão imediatista: fucei gaveta, esparramei papeletas e encontrei seu manual. Hoje, meu almoço foi melhor que o de ontem. Amanhã, certamente, será melhor que o de hoje. Resta mesmo é saber até quando terei com o que encher a barriga oca, na potência HI, deste utilitário-amigo-de-fé, meu irmão, camarada, Adamastor!

PS:. Para os incultos do bom humor, das horas difíceis de percorrer, neste mundo-de-meu-Deus, elucido:
Godofredo (Godô): meu computador “Frankenstein”, nascido das carcaças dos computadores do meu filho, Leo Sam, o Grande!
Margarida: minha máquina de lavar roupas, Brastemp, Plenomática, nascida em mil-novecentos-e-cafunga!
Teobaldo: Meu relógio de parede, que, de tempos pra cá, resolveu funcionar somente deitado. Cansou de contar as horas, assim como eu, creio!
Visionária: minha super TV 14 polegadas, de imagem perfeitamente coloridas. Diziam que não sobreviveria tanto tempo, mas… é a pequena mais potente que já tive em mãos!
Matilde: Minha boneca de pano, confeccionada por inúmeras mãozinhas infantis, adquirida num bazar beneficente (por uma amiga), que não a quis e a deu para mim. Hoje, a principal personagem do primeiro livro infantil que escrevi!
Catulo: Meu violão de seis cordas, que batizei assim em homenagem ao Catulo da Paixão Cearense, de quem o mundo contemporâneo nem ouviu falar, mas… que descreveu magnificamente sua própria viola!
Adamastor: meu querido amigo, o Microondas mais perfeito do mundo! Tem substituído com galhardia meu fogão a gás… cujo gás resolveu acabar exatamente no meio do meu sossego… breve intervalo na minha mais nova recessão particular, espero eu!
Ferrugem: único que não precisou ganhar vida… pois, já veio com ela: meu peixinho Betta!
Ah… e antes que pensem que enlouqueci de solidão (palavra inexistente no dicionário da minha humilde existência), saibam: Nem por um instante me esqueceria do saudoso Lion. Carro que conduzia a mim e minha família, ainda que aos trancos-e-barrancos!
Creiam-me: bastava alguns minutinhos de laboriosa argumentação sobre seu capô, para que ele voltasse a roncar, ameaçando restinho de vida dentro de sua carcaça velha e utilitária!
É… quem foi que disse que o cachorro é o único amigo do Homem, hem?! rs.
Sol:]
Véspera de feriado, nesta cidade aconchegante e conservadora, entre feltros, fitas e boa música, em plena primavera de 2009!